terça-feira, 20 de novembro de 2012

Era uma vez uma máquina de lavar roupa

Durante muito tempo foi assim: à sexta feira a mãe enchia os alguidares de água e detergente e, durante toda a manhã, lavava a roupa da semana. As mães dos outros meninos faziam o mesmo. Vivíamos no Alentejo, o 25 de Abril tinha acontecido havia poucos anos, o FMI estava quase a chegar e pouca gente tinha dinheiro para luxos. Depois o meu pai fez uma surpresa à minha mãe e apareceu lá em casa uma máquina de lavar roupa novinha em folha que nos deixou todos orgulhosos e mais ainda à minha mãe, com certeza, que lavar a roupa da família toda à mão não havia de ser nenhuma pêra doce.
Hoje em dia não nos passa pela cabeça não ter uma máquina de lavar roupa. Ou aquecer a água do banho no fogão porque não há esquentador. Temos a vaga noção de que haverá casos desses, mas na verdade estão sempre muito longe de nós. Preocupam-nos, mas esquecemo-los logo a seguir, no meio dos ritmos alucinados das nossas vidas onde não falta (quase) nenhum electrodoméstico.
Neste caso, a realidade não me deixou esquecer tão facilmente. Era preciso arranjar uma máquina de lavar roupa para a mãe das gémeas, porque é inverno, porque há muita roupa que se suja e, sobretudo, porque as técnicas da Segurança Social acham que uma máquina de lavar roupa numa casa é essencial para que uma família de risco não ultrapasse ainda mais as fronteiras do risco.
E a máquina de lavar roupa lá está, já em casa. Um post no Facebook fez milagres. Apareceu uma em segunda mão em Odivelas, outra em vila Franca de Xira, outra ainda em Lisboa. E houve até quem telefonasse a oferecer-se para dar uma nova, comprada de propósito para as gémeas. Não foi preciso, que o problema já estava resolvido. Mas valeu a pena. Porque há quem se preocupe e isso é sinal de que nem tudo está perdido. Que, quando é preciso, ainda temos capacidade de desligar dos nossos dias.

3 comentários:

graça anibal disse...

Fantástico!

catarina disse...

uma Madalena disse-me uma vez que os portugueses são muito solidários, mas que normalmente não temos noção disso. :)

Fátima disse...

Fiquei muito feliz porque sei que tu estás felissícima.