Eu - Madalena, olha lá, quem é este aqui na fotografia?Ela, sem hesitar - Pedinho.
(Sérgio, Maio de 1975)
A bisavó da Madalena e do Pedro tem 94 anos e só desde o ano passado é que não vai à Avenida da Liberdade no 25 de Abril. Dantes ia sempre, diz ela. Ia e de vez em quando aproveitava para gritar "viva a república", que afinal o desfile dá para tudo e para todos e para o que cada um quiser. Este ano a avó Graça não foi, mas o Pedro e a Madalena lá estiveram. Ele a dormir, embalado pela Grandola Vila Morena, ela a olhar para tudo e para todos com aqueles olhos dela sempre tão curiosos com o mundo. Cada um no seu carrinho, o pai com um, eu com o outro, a nossa família de quatro lá desceu até ao Rossio, ao lado
do carro da junta de freguesia de Corroios, que ia distribuindo cravos vermelhos acompanhados de Zeca Afonso em altas doses de decibéis. E eu, que agora me comovo por tudo e por nada (o baby blues não perdoa), dei por mim à beira das lágrimas só de pensar em como a minha vida mudou para melhor nos últimos dois anos e em como me sinto feliz, feliz, como nunca antes me senti, apesar das noites mal dormidas, das olheiras até ao umbigo e das doses de ansiedade quando me ponho a antecipar como é que isto vai ser quando voltar ao trabalho. Gostava de chegar aos 94 como a avó Graça e de todos os anos lá ir, descer a Avenida de cravo vermelho na mão.