Era uma vez um gato cinzento, de cauda torta, ideias fixas, guloso até mais não poder e conhecido em toda a vizinhança pelas asneiras que fazia, mas também pela meiguice que lhe valia sempre grandes prémios em forma de comida. O gato chamava-se Calvin e há muito que tinha esgotado as suas sete vidas: andou perdido nos jardins da Fundação Mário Soares, foi raptado por uma velhota carente que o fechou em casa dela, apareceu estropiado num veterinário, caiu de um segundo andar e partiu o queixo, perdeu-se e foi parar a uma morgue, de onde um senhor muito simpático telefonou ao dono a avisar, entre muitas outras coisas que nunca ninguém soube porque ele era um gato discreto que não gostava de se gabar das suas aventuras.
Um dia o Calvin não voltou a casa. Ele, que nunca falhava a hora do jantar mais do que dois ou três dias seguidos, pura e simplesmente, desapareceu. Os donos palmilharam o bairro, perguntaram a toda a gente, ficaram a conhecer mais alguns vizinhos de tanto bater às portas e acabaram por desistir, porque o Calvin desapareceu sem deixar rasto. Todas as noites a dona espreitava pela janela da cozinha, não fosse ele aparecer, e o dono dizia a quem o queria ouvir que o gato cinzento de cauda torta estava vivinho da silva e só não vinha para casa porque não o deixavam. Passaram os dias, as semanas, os meses, quatro, cinco, seis, os donos já nem se lembram, porque entretanto muita coisa aconteceu e até lhes nasceu um bebé. Até que ontem, de repente, o dono saiu de manhã para comprar o pão do pequeno almoço e quando voltou para casa, lá estava ele no patamar, à espera que alguém lhe abrisse a porta. Assim como se tivesse saido há dois dias para uma voltinha, como costumava fazer. Entrou em casa muito determinado, cumprimentou o Zorbas - o outro gato da casa - meteu o nariz em todo o lado e foi instalar-se, de ar feliz e regalado no seu canto preferido da marquise. Não contou a ninguém onde passou os últimos meses e os donos também não lhe perguntaram nada. Estão demasiado ocupados em mimá-lo e livrá-lo dos vários milhares de pulgas que lhe invadiram o pelo cinzento.
O que o avô António havia de ter gostado desta história...
terça-feira, 16 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Manos
Fiquei três dias sem a ver, uma eternidade, nós que nunca tinhamos passado uma noite uma sem a outra, e dos relatorios que me iam fazendo, diziam-me que nem uma vez tinha perguntado pela mamã. Ela sabe que alguma coisa se passa e está a ser uma menina muito corajosa, garantia o pai e provavelmente com razão, porque ela olhou para mim na maternidade como se já soubesse muito bem que eu estava ali e aquilo fosse tudo muito normal. Ao mano, à parte uma rápida espreitadela para o berço, não ligou nenhuma.
Quando o trouxemos para casa, foi assim durante algum tempo, mas agora já começa a interessar-se mais por ele. Chama-me quando o ouve a chorar, vai espreitar o berço quando lhe digo que vá ver se ele está bem e ficou toda orgulhosa quando lho pusémos no colo, com direito a beijinho e tudo. "Mano Pedo", diz ela. "Mano quido", diz às vezes, porque percebeu que ficamos todos derretidos quando a ouvimos.
Ontem saímos os quatro pela primeira vez, para mostrar o rio ao Pedro. A minha pequena grande família e um amor tão grande, tão grande, que às vezes parece que não cabe todo aqui dentro e é preciso chorar um bocadinho.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Nasceu uma estrela
Eram onze e cinco da noite quando o rapaz deslizou suavemente para fora - não sei se haverá sensação de maior alívio... - e o colocaram, finalmente, em cima da minha barriga. Para ser honesta, a única coisa que vislumbrei foi uma pilinha, porque o levaram imediatamente dali para fora, com o pai atrás, para averiguar o que raio lhe iam fazer ao herdeiro. Só voltaram quase uma hora depois, já eu suspirava por uma sandocha de fiambre e uma meia de leite, ainda indiferente às dores que durante mais de uma semana não haveriam de me deixar sentar decentemente. A única coisa que consegui foi um pacotito de leite e uma paposeco muito seco com manteiga, que afinal aquilo era a MAC e não um hotel de cinco estrelas. Pormenor sem importância, porque já tinha a minha criança no colo, lindo e maravilhoso apesar das ruguinhas todas, dos olhos inchados e do ar, em geral, de quem tinha acabado de fazer uma viagem longa e acidentada.Lá fora estava um sábado ventoso e chuvoso e à minha frente tinha um pai derretido de orgulho pelo seu feito. Na sala de espera, o tio Rui mais meia dúzia de amigos ainda a comemorar os quatro-zero do Leixões-Benfica dessa noite e uma família de ciganos, também a aguardar por um novo membro, deram as boas vindas ao Pedro.
domingo, 7 de março de 2010
Pedro
O rapaz nasceu a 27 de Fevereiro, quatro dias antes do esperado, com 3,380 kg e 50 centímetros de comprimento. É lindo e maravilhoso. Muito. Estamos cheios de histórias para contar e para guardar para a posteridade, mas entre fraldas, mamadas, banhos (a duplicar), mimos para a mana (também a duplicar), tudo sempre a arrastar uma boia comigo não vá precisar de me sentar, a vinda ao blog tem sido sempre adiada. Brevemente daremos mais notícias.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
A minha própria filha
De manhã, mamã prepara-se para entrar no duche.
Pai, armado em engraçadinho - A mamã está redonda, já viste, filha?
Madalena, toda sorridente - Gôda
Mamã, em estado de choque - O quê, dona princesa??
Madalena, toda satisfeita com a gracinha - Gôda.
Mamã corre com os dois da casa de banho e vai deprimir-se para o chuveiro, a congeminar terriveis vinganças. Contra o papá claro.
Pai, armado em engraçadinho - A mamã está redonda, já viste, filha?
Madalena, toda sorridente - Gôda
Mamã, em estado de choque - O quê, dona princesa??
Madalena, toda satisfeita com a gracinha - Gôda.
Mamã corre com os dois da casa de banho e vai deprimir-se para o chuveiro, a congeminar terriveis vinganças. Contra o papá claro.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Pequena definição de paraiso
Dou-lhe o leitinho na cama, o pai levanta-se para tomar banho e nós lá ficamos as duas, agarradinhas, quentinhas, a mimar-nos uma à outra. Na barriga, o bebé acorda e diz bom dia.
Contingências
Aquela curvinha na anca, que o pai inveja sempre que tem de andar com ela ao colo durante algum tempo, desapareceu completamente. Estou basicamente direita e as únicas (a única) forma que me resta é mesmo para a frente, uma barriga que parece não parar de crescer, muito empinada e direitinha. "É um rapaz, de certeza", garanta-me o senhor da mercearia ali da Luciano Cordeito, do alto da sua sabedoria com mais de 70 anos. "É um rapaz, porque espetam as barrigas das mães e fazem-lhes a cara mais bonita. Além diso, por trás nem se nota que estão grávidas", conclui. Saio desta conversa improvável a pensar para onde ficará ele a olhar e firmemente decidida a evitar espreitar de lado para os reflexos das montras, que me devolvem uma autêntica baleia, um bocadinho maior a cada dia que passa.
Faltam 10 para o fim do prazo, mas o rapaz, depois das ameaças da semana passada, não parece disposto a sair de onde está. As contracções pararam completamente e, tirando o meu estômago lembrar-se disso de cinco em cinco minutos, quase conseguia esquecer-me que estou grávida. A verdade é que não tive praticamente nenhum daqueles sintomas chatos da gravidez, que não vou aqui enumerar para não enfastiar o estimado leitor, mas que incluem coisas interessantes como pernas inchadas e hemorroidal. Se não fossem os onze quilos a mais e o formato baleia, eu seria definitivamente uma grávida feliz.
Faltam 10 para o fim do prazo, mas o rapaz, depois das ameaças da semana passada, não parece disposto a sair de onde está. As contracções pararam completamente e, tirando o meu estômago lembrar-se disso de cinco em cinco minutos, quase conseguia esquecer-me que estou grávida. A verdade é que não tive praticamente nenhum daqueles sintomas chatos da gravidez, que não vou aqui enumerar para não enfastiar o estimado leitor, mas que incluem coisas interessantes como pernas inchadas e hemorroidal. Se não fossem os onze quilos a mais e o formato baleia, eu seria definitivamente uma grávida feliz.
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