terça-feira, 16 de março de 2010

O bom gato à casa torna

Era uma vez um gato cinzento, de cauda torta, ideias fixas, guloso até mais não poder e conhecido em toda a vizinhança pelas asneiras que fazia, mas também pela meiguice que lhe valia sempre grandes prémios em forma de comida. O gato chamava-se Calvin e há muito que tinha esgotado as suas sete vidas: andou perdido nos jardins da Fundação Mário Soares, foi raptado por uma velhota carente que o fechou em casa dela, apareceu estropiado num veterinário, caiu de um segundo andar e partiu o queixo, perdeu-se e foi parar a uma morgue, de onde um senhor muito simpático telefonou ao dono a avisar, entre muitas outras coisas que nunca ninguém soube porque ele era um gato discreto que não gostava de se gabar das suas aventuras.
Um dia o Calvin não voltou a casa. Ele, que nunca falhava a hora do jantar mais do que dois ou três dias seguidos, pura e simplesmente, desapareceu. Os donos palmilharam o bairro, perguntaram a toda a gente, ficaram a conhecer mais alguns vizinhos de tanto bater às portas e acabaram por desistir, porque o Calvin desapareceu sem deixar rasto. Todas as noites a dona espreitava pela janela da cozinha, não fosse ele aparecer, e o dono dizia a quem o queria ouvir que o gato cinzento de cauda torta estava vivinho da silva e só não vinha para casa porque não o deixavam. Passaram os dias, as semanas, os meses, quatro, cinco, seis, os donos já nem se lembram, porque entretanto muita coisa aconteceu e até lhes nasceu um bebé. Até que ontem, de repente, o dono saiu de manhã para comprar o pão do pequeno almoço e quando voltou para casa, lá estava ele no patamar, à espera que alguém lhe abrisse a porta. Assim como se tivesse saido há dois dias para uma voltinha, como costumava fazer. Entrou em casa muito determinado, cumprimentou o Zorbas - o outro gato da casa - meteu o nariz em todo o lado e foi instalar-se, de ar feliz e regalado no seu canto preferido da marquise. Não contou a ninguém onde passou os últimos meses e os donos também não lhe perguntaram nada. Estão demasiado ocupados em mimá-lo e livrá-lo dos vários milhares de pulgas que lhe invadiram o pelo cinzento.

O que o avô António havia de ter gostado desta história...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Manos

Quando a vi entrar no quarto da maternidade, casaco de lã da avó, muito despachada, com um desenho na mão, prenda para a mamã e para o mano recém-nascido, tão linda, tão linda, até se me esqueceram as dores todas porque se não a abraçasse rapidamente desmanchava-me ali mesmo em lágrimas. E isso é que não podia ser.


Fiquei três dias sem a ver, uma eternidade, nós que nunca tinhamos passado uma noite uma sem a outra, e dos relatorios que me iam fazendo, diziam-me que nem uma vez tinha perguntado pela mamã. Ela sabe que alguma coisa se passa e está a ser uma menina muito corajosa, garantia o pai e provavelmente com razão, porque ela olhou para mim na maternidade como se já soubesse muito bem que eu estava ali e aquilo fosse tudo muito normal. Ao mano, à parte uma rápida espreitadela para o berço, não ligou nenhuma.


Quando o trouxemos para casa, foi assim durante algum tempo, mas agora já começa a interessar-se mais por ele. Chama-me quando o ouve a chorar, vai espreitar o berço quando lhe digo que vá ver se ele está bem e ficou toda orgulhosa quando lho pusémos no colo, com direito a beijinho e tudo. "Mano Pedo", diz ela. "Mano quido", diz às vezes, porque percebeu que ficamos todos derretidos quando a ouvimos.


Ontem saímos os quatro pela primeira vez, para mostrar o rio ao Pedro. A minha pequena grande família e um amor tão grande, tão grande, que às vezes parece que não cabe todo aqui dentro e é preciso chorar um bocadinho.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Nasceu uma estrela

Desta vez tudo foi diferente. Eu queria um parto com história e queria saber o que é isso de parir uma criança sem ser por cesariana, que não é uma forma menor de o fazer, mas essa experiência já eu a tinha. Queria e tive. Fiquei mais de 24 horas no bloco, graças a uma médica demasiado picuinhas, mas o trabalho de parto propriamente dito durou umas sete horas, mais coisa, menos coisa, desde que uma sádica qualquer resolveu que estava na hora de romper as águas. A partir desse momento começou a tal "história" que eu queria e que incluiu de tudo, desde gargalhadas a gritos - muitos - com alguns insultos pelo meio. Não só ao pai de família cá de casa, que não arredou pé e não se deixou impressionar, mas também ao enfermeiro Pedro, homem de grande paciência e belo sorriso, que me trouxe uma anestesista logo que as regras me permitiram a epidural e que me deixou andar pelo chão nas horas de maior angustia, porque lhe falei na minha avó alentejana, que teve nove filhos e, muito provavelmente, nenhum lhe nasceu na cama.
Eram onze e cinco da noite quando o rapaz deslizou suavemente para fora - não sei se haverá sensação de maior alívio... - e o colocaram, finalmente, em cima da minha barriga. Para ser honesta, a única coisa que vislumbrei foi uma pilinha, porque o levaram imediatamente dali para fora, com o pai atrás, para averiguar o que raio lhe iam fazer ao herdeiro. Só voltaram quase uma hora depois, já eu suspirava por uma sandocha de fiambre e uma meia de leite, ainda indiferente às dores que durante mais de uma semana não haveriam de me deixar sentar decentemente. A única coisa que consegui foi um pacotito de leite e uma paposeco muito seco com manteiga, que afinal aquilo era a MAC e não um hotel de cinco estrelas. Pormenor sem importância, porque já tinha a minha criança no colo, lindo e maravilhoso apesar das ruguinhas todas, dos olhos inchados e do ar, em geral, de quem tinha acabado de fazer uma viagem longa e acidentada.Lá fora estava um sábado ventoso e chuvoso e à minha frente tinha um pai derretido de orgulho pelo seu feito. Na sala de espera, o tio Rui mais meia dúzia de amigos ainda a comemorar os quatro-zero do Leixões-Benfica dessa noite e uma família de ciganos, também a aguardar por um novo membro, deram as boas vindas ao Pedro.

domingo, 7 de março de 2010

Pedro

O rapaz nasceu a 27 de Fevereiro, quatro dias antes do esperado, com 3,380 kg e 50 centímetros de comprimento. É lindo e maravilhoso. Muito. Estamos cheios de histórias para contar e para guardar para a posteridade, mas entre fraldas, mamadas, banhos (a duplicar), mimos para a mana (também a duplicar), tudo sempre a arrastar uma boia comigo não vá precisar de me sentar, a vinda ao blog tem sido sempre adiada. Brevemente daremos mais notícias.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A minha própria filha

De manhã, mamã prepara-se para entrar no duche.

Pai, armado em engraçadinho - A mamã está redonda, já viste, filha?

Madalena, toda sorridente - Gôda

Mamã, em estado de choque - O quê, dona princesa??

Madalena, toda satisfeita com a gracinha - Gôda.

Mamã corre com os dois da casa de banho e vai deprimir-se para o chuveiro, a congeminar terriveis vinganças. Contra o papá claro.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pequena definição de paraiso

Dou-lhe o leitinho na cama, o pai levanta-se para tomar banho e nós lá ficamos as duas, agarradinhas, quentinhas, a mimar-nos uma à outra. Na barriga, o bebé acorda e diz bom dia.

Contingências

Aquela curvinha na anca, que o pai inveja sempre que tem de andar com ela ao colo durante algum tempo, desapareceu completamente. Estou basicamente direita e as únicas (a única) forma que me resta é mesmo para a frente, uma barriga que parece não parar de crescer, muito empinada e direitinha. "É um rapaz, de certeza", garanta-me o senhor da mercearia ali da Luciano Cordeito, do alto da sua sabedoria com mais de 70 anos. "É um rapaz, porque espetam as barrigas das mães e fazem-lhes a cara mais bonita. Além diso, por trás nem se nota que estão grávidas", conclui. Saio desta conversa improvável a pensar para onde ficará ele a olhar e firmemente decidida a evitar espreitar de lado para os reflexos das montras, que me devolvem uma autêntica baleia, um bocadinho maior a cada dia que passa.
Faltam 10 para o fim do prazo, mas o rapaz, depois das ameaças da semana passada, não parece disposto a sair de onde está. As contracções pararam completamente e, tirando o meu estômago lembrar-se disso de cinco em cinco minutos, quase conseguia esquecer-me que estou grávida. A verdade é que não tive praticamente nenhum daqueles sintomas chatos da gravidez, que não vou aqui enumerar para não enfastiar o estimado leitor, mas que incluem coisas interessantes como pernas inchadas e hemorroidal. Se não fossem os onze quilos a mais e o formato baleia, eu seria definitivamente uma grávida feliz.