quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Carta ao Pai Natal

Finalmente ficou pronta a carta deste ano ao Pai Natal. Não foi uma tarefa fácil porque desta vez foi totalmente escrita por dona princesa e, como podem constatar, são muitas letras e palavras.

A selecção foi demorada. Pedrinho garantiu por várias vezes que não conseguia escolher e, de facto, está um bocadinho monotemático. Madalena só se lembrava da Carlota Cambalhota, uma boneca pavorosa, mas cujo anúncio tem uma música que fica no ouvido. Ela não queria a boneca, mas gosta da cantilena... Desistiu, vá lá. Já os anúncios da Playmobil, pelos vistos, também são irresistíveis. Menos mal.

(aviso aos possíveis interessados: por favor contactem os pais antes de qualquer aquisição, porque algumas destas belas ideias até já estão compradas.)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Coisas de mãe

No Domingo mal estivemos juntos de manhã, antes de eu ter de sair para uma tarde de trabalho que se prolongou até tarde. Quando cheguei a casa, Mada estava muito cansada, mas recusava-se a dormir. Quando o Pedro adormecer, vou para a tua cama, que assim ele não fica triste, está bem, mãe? Combinámos que sim. Eu convencida que entretanto quem se deixava dormir era ela e ela decidida a cumprir o combinado. E cumpriu. E eu tive de a deixar ir para a minha cama, que estas promessas não se fazem em vão. Por isso deitei-me com ela, as duas muito aconchegadas, quentinhas, num abraço tão bom, e de repente era como se fosse eu pequenina, deitada na cama com a minha mãe, quando o pai ainda não tinha chegado a casa e ela fazia crochet ao meu lado para eu adormecer. Não faço ideia de quantos anos tinha, mas lembrei-me tão bem, tão bem, e tive a certeza de que nunca mais me voltei a sentir tão segura. Adormecemos ali as duas, eu e a Mada. Espero que daqui a muitos anos ela também se recorde de mim assim.

sábado, 22 de novembro de 2014

Que bela maneira de estragar um sábado

Meninos a caminho da piscina com o pai, eu de pijama no sofá, a beber chá e de livro na mão. Tenho duas horas só para mim pela frente, tanto tempo, tanto tempo para fazer o que me apetecer. Talvez fique por ali a ler. Ou, se calhar, podia aproveitar para, finalmente, tirar toda a roupa de verão das gavetas. Ou então, podia ir apanhar as folhas que já tapam a relva no jardim. Ná… fico mesmo pelo sofá, de livrinho na mão. Duas horas só para mim são coisa demasiado rara para não as aproveitar ao segundo. Mas, antes, vou só espreitar o Facebook, a ver se há novidades. Vou e pronto, foi o maior erro do meu sábado. "José Sócrates foi detido na sexta-feira à noite no aeroporto, quando chegava a Lisboa. Corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal". Lá se vai o fim-de-semana longo que tenho pela frente. Há folhas para apanhar, é preciso ir ao supermercado, pensar nas refeições da próxima semana, pôr a roupa na máquina, arrumar os quartos, os brinquedos, fazer o mais possível no menor tempo possível porque há trabalho pela frente. Quem me mandou a mim ir espreitar as notícias? Estava tão feliz na ignorância.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Filho querido de sua mãe


Pedrinho para a mamã, logo de manhã, depois de acordar e de saltar para a cama dos pais, como faz todos os dias: "mãe, eu só quero fazer tu feliz." Gramáticas à parte, este miúdo faz-se. Assim é fácil acordar, nem que seja de madrugada, como acontece de vez em quando graças à energia matinal dele.

domingo, 12 de outubro de 2014

Uma filha no primeiro ano

Dona princesa saiu de casa um bocadinho angustiada, mas nada de muito excessivo e, sobretudo, nada que não se compreendesse perfeitamente, ou não se desse o caso de aquele ser o seu primeiro dia de aulas, no primeiro ano, na sala do andar de cima e com a professora Ruca que, até aí, ela só conhecia dos corredores da escola.

À noite, já em casa, resumiu assim a coisa: “Hoje foi um dia bom. Gostei deste dia”. Era o que se queria, porque a expectativa tinha sido muita. A mochila com as meninas do Frozen, o estojo também, os lápis, as canetas, a capa, os cadernos, tudo novo, tudo à séria, tudo visto e revisto tantas vezes.

A turma manteve-se quase igual à do último ano do JI. A amiga Alice, sentada ao seu lado (ao fim de uns dias tiveram de ser separadas, porque falavam muito, agora estão juntas novamente, como meninas crescidas que são), a Lara, a Ema, a Carolina e todos outros meninos e meninas que já conhecia do ano anterior.

Desde aí, está nas suas sete quintas. Na escola corre sempre tudo bem. Que fizeste hoje? Nada de muito interessante, responde. Já lê com uma grande rapidez, faz as fichas de matemática com uma perna às costas e está sempre a dizer que fazer os trabalhos de casa “é uma seca”. Ainda assim, faz tudo perfeitinho. Tão perfeitinho, com tamanho perfeccionismo, que leva muito tempo e por isso lá vem a frase sacramental: “é uma seca”. Pois, percebe-se: escreve três letras e apaga duas, porque a perninha do “a” não está direita ou o “u” parece um “4”. Explica que Tem de “ter boas notas” e depois conta, muito orgulhosa, que a professora “disse que estava tudo bem”.

Felizmente (diz ela e digo eu, ainda que sem ela ouvir), só há trabalhos à terça e ao fim-de-semana. Pedrinho, sempre muito atento, também fica satisfeito, porque assim tem a mana mais vezes para brincar com ele.


Já lá vai mais de um mês desde o início das aulas, mas devíamos este post aos nossos quatro leitores fieis (ok, talvez cinco, já contando com as avós). 

sábado, 13 de setembro de 2014

Férias boas, boas, boas



Este ano a banda sonora mais ouvida das férias foi um CD da Adriana Calcanhoto, que lhes apresentámos e que se tornou um sucesso. Ouvimo-lo até à exaustão e aprenderam de cor todas as canções. Foram umas férias tão boas que combinaram na perfeição com a música da Adriana Calcanhoto. Férias com manhãs de praia e tardes de piscina. Sem carro, sem jornais, sem televisão, com livros da Alice Munro e do Mario Vargas Llosa. Com passeios pela ria e pela praia para apanhar conchas. E brincadeiras no relvado grande com a Beatriz, a amiga de sempre das férias. Com jantares no Ideal (ok, foi só um, afinal era Agosto) e a tradicional visita a Espanha, desta vez para comprar uma mochila nova para a escola. Foram umas férias muito boas, com Pedrinho e Madalena a brincar imenso um com o outro e a deixar os pais dormir a sesta. E depois, no Alentejo, os habituais miminhos da mãe e do pai (ou avó e avô, consoante a perspectiva). Até o regresso a Lisboa e à nossa casa cheia de gatos e a cheirar a gatos foi bom, depois de três semanas fora. No fim disse à Madalena e ao Pedro: mesmo quando vocês forem crescidos e forem de férias com os amigos, reservam sempre uma semana para virem com os pais, boa? Sim, mamã, respondeu o Pedrinho, entre beijinhos. Tenho de pensar, declarou dona Madalena.

sábado, 30 de agosto de 2014

O dia em que o bisavô saiu no jornal

No jornal Público
A propósito do centenário do início da Primeira Grande Guerra, o jornal Público tem feito um trabalho muito interessante de análise histórica do que aconteceu nos anos de 1914-1918. Uma das rubricas diárias chama-se Memórias de Família e conta pequenas histórias de soldados que fizerem a guerra e que continuam a ser lembrados pelas suas famílias.

A história de hoje é a do Avô Aniceto, Bisavô da Madalena e do Pedro, que nasceu há 120 anos, esteve na guerra da Flandres, foi feito prisioneiro pelos alemães e voltou ao seu monte alentejano quando já todos o davam como morto.
Fica aqui, para que os seus bisnetos também o recordem sempre:


As histórias do avô prisioneiro de guerra

Muitos anos depois de ter voltado, Aniceto José gostava de se sentar no canto da chaminé, na sua casa do monte alentejano, a beber chá e a contar histórias aos netos. Sabia muitas, e por vezes contava-nos também coisas do tempo da Grande Guerra. De como o frio apertava nas trincheiras e os soldados comiam sopa aguada dentro dos capacetes que usavam na cabeça. E dos alemães, que o fizeram prisioneiro na batalha de La Lys e que, no fim de contas, assim lhe salvaram a vida. Era o herói da família, este avô que nunca matou ninguém porque lhe deram a tarefa de maqueiro e que a família deu como morto, mas que conseguiu regressar são e salvo da maior aventura da sua vida.

Aniceto José nasceu em 1895 na aldeia da Trindade, entre Beja e Castro Verde, no coração do Alentejo. Era ainda adolescente quando lhe morreu o pai e habituou-se desde cedo a trabalhar na lavoura e a cuidar da mãe e das cinco irmãs. Tinha 20 anos quando foi chamado a fazer a tropa e 22 quando, num dia que nós imaginamos cinzento e chuvoso, partiu do monte da Caxia, onde então vivia, para o comboio que o haveria de levar a Lisboa para embarcar para a Flandres.

A partida esteve longe de ser pacífica. Houve quem desertasse e quem simplesmente lhe desse para andar pela cidade, onde, quase de certeza, a maioria nunca tinha estado. O avô contava que muitos embarcaram à força, “por ordem do Sidónio Pais, que os vendeu a todos aos ingleses por uma libra por cabeça”. Não era homem de ligar muito à política, mas do Sidónio Pais nunca gostou.

Os recrutas de Beja integraram o Regimento de Infantaria 17 do corpo Expedicionário Português (CEP), que embarcou para França a 21 de Agosto de 1917. Ninguém sabia muito bem o que iria encontrar, mas era certo que não seria bom e o avô Aniceto haveria de levar o coração na boca. Mesmo aos netos, que o consideravam um herói, reconheceu muitas vezes o medo que teve, que todos tinham, escondidos nas trincheiras à espera dos bombardeamentos alemães. Nunca matou ninguém, mas viu a morte de frente tantas vezes, que lhes perdeu a conta, porque, como maqueiro, tinha de recolher do campo de batalha os mortos e os feridos. Disso não gostava muito de falar. Preferia contar coisas sobre os alemães, que o fizeram prisioneiro a 9 de Abril de 1918, na histórica batalha de La Lys.

Esteve oito meses em Wesel, junto à fronteira com a Holanda onde, nas margens do Reno, ficava o campo de prisioneiros de guerra de Friedrichsfeld. Desse tempo sobreviveu um postal, enviado à mãe, Joaquina Maria: “Minha querida mãe, muito lhe desejo a sua saúde e bem e assim como as minhas manas e meus sobrinhos e toda a nossa família que me pertence, que este seu filho goza saúde. Minha mãe, peço que me diga as novidades. Sem mais, abrace muito as minhas manas e recomende a toda a nossa vizinhança. Aniceto José”

Aprendeu a ler na tropa, mas pedia a alguém que lhe escrevesse as cartas. E foi isso que deu origem a uma grande confusão, que levaria a família a dá-lo como morto: num outro postal que chegou ao Alentejo, lia-se que ele estava “na companhia do padrinho”, que também tinha ido para a guerra. Acontece que, pouco tempo antes, chegara a notícia de que o padrinho tinha morrido, pelo que a família pensou que aquela era uma forma de os colegas contornarem a censura que se fazia à correspondência dos prisioneiros e assim lhe dizerem que ele estava morto.

Aniceto regressou a Portugal a 18 de Janeiro de 1919, poucos dias depois de fazer 24 anos. Pediu a um compadre que fosse à frente, dar a notícia à mãe e às irmãs e assim evitar comoções, mas entre nós, os netos, imaginávamo-lo a chegar ao monte em apoteose, com as manas ainda de luto, a abraçá-lo e a desmaiarem de emoção.  

Voltou à sua vida de lavrador, casou com Bárbara da Lança Palma e tiveram seis filhos, 10 netos, 13 bisnetos e quatro trisnetos. Morreu tranquilamente, durante o sono, aos 88 anos.