segunda-feira, 25 de maio de 2015

Os sete anos de dona princesa

Acordou pouco depois das seis e meia da manhã, fresca que nem uma alface, prontinha para ver as prendas de anos para depois escolher o que haveria de vestir para levar para a escola. Resignámo-nos e ainda não eram sete estava toda a gente fora da cama. Não é todos os dias que se fazem sete anos, há festa na sala dela, é preciso tratar do bolo, dos sumos, tanta preocupação e os sapatos novos - uma das prendas - afinal não servem, que ela cresce, cresce, todos os dias um bocadinho mais e qualquer dia está da altura da mãe. Dona princesa faz sete anos e eu ainda estou a digerir a ideia de que tenho uma (quase) pré-adolescente em casa, que já lê livros sozinha antes de ir dormir, que me pede só mais uma página, mãe, só mais uma página, que está numa parte tão importante. E que quer, porque quer um tablet, e que já faz pesquisas no Google para trabalhos na escola, apesar de ainda só estar no 1º ano e que me faz perguntas difíceis, cada vez mais difíceis, porque quer saber tudo, quer aprender tudo. Não sei mais o que vos diga. É linda, é inteligente, é minha filha.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Dúvidas existenciais em período pascal

Páscoa em Lisboa. Madalena, ja quase a terminar o jantar, resolve colocar ao avô uma questão em relação à qual, explicou, tinha muita curiosidade: Avô, tu acreditas em Deus? O avô engasgou-se, demorou-se um pouco mais numa garfada de lasanha (de atum que hoje, já se sabe, não se come carne, como muito bem justificou dona princesa mal se sentou à mesa) e, um bocadinho titubeante, lá respondeu, à sua maneira, que não critica, mas que acreditar, acreditar, nem por isso. Ainda estou a pensar, concluiu. Eu também estou a pensar, mas não sei se acredito muito, disse a neta. A Alice [melhor amiga da escola] diz que não acredita nada nessas coisa, eu ainda estou a pensar.

[Continua a pensar, querida Madalena. O importante é que penses e reflictas sobre o assunto. Um dia, hás-de conhecer a (tua) verdade, seja ela qual for]

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Pedrinho, antes de ir dormir e depois de um jogo que consistiu na leitura de um livro, por dona princesa, e perguntas sobre o dito a toda a família, para testar os níveis de atenção: Eu também quero fazer uma pergunta a toda a gente, quem é que fez as coisas todas no mundo? Foi Deus, respondeu a avó, muito despachada. Não foi nada, foram os senhores das obras, corrigiu ele, a rir que nem um perdido. Ai é, e quem é que fez os senhores das obras? Foi Deus..., lá teve de admitir o nosso pequeno beato.

[Já deitado, antes de se pôr a dormir, ainda foi buscar um livro para "ler" sozinho: "75 Perguntas Fascinantes Sobre o Universo]

domingo, 22 de março de 2015

Ai a Cinderela, a Cinderela.

Lá fomos ver, para grande desgosto do Pedrinho, que preferia o Paddington, mas estava esgotada a última sessão da tarde dobrada em português. Mada gostou de tudo. Gostou do vestido azul, do príncipe de dentes muito direitinhos (se calhar é uma próteses, coitado, que até parece aquele apresentador da Benfica TV que agora não me lembro o nome), dos ratinhos, da abóbora, de tudo, de tudo. E quando o sapatinho finalmente enfiou no pé da sua legítima dona e já se estava mesmo a ver que o fim estava próximo, dona Mada perguntou: Está quase a acabar, mãe? eu quero continuar a ver, pelo menos mais uma hora.

Já o Pedro... bom, o Pedro não gostou assim muito, muito, porque aquilo era história de meninas e não se deixou impressionar nem sequer com os caçadores na floresta ou os cavalos da guarda real. Só achou graça à transformação da abóbora em carruagem, dos ratos em cavalos e dos lagartos e do ganso em gente verdadeira para conduzir aquela traquitana cheia de dourados. Saiu de lá a dizer, como se fosse um mantra: Paddington, Paddington, Paddington...

O filme não é a melhor coisa que a Disney já fez, mas, pelo menos, arranjaram uma explicação para o facto de à meia noite tudo se transformar e voltar ao que era dantes menos o belo do sapato de cristal. Madalena ficou satisfeita, porque lá teve resposta a uma das suas dúvidas existenciais, que vinha à baila sempre que líamos a história.

(Solução: na hora de verti a rapariga para o baile, a fada fez os sapatos, não se limitou a transformar os velhos e a pô-los bonitos. Fácil, pois, não sei é se é o que está na versão original do Charles Perrault).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Cem anos, como a avó Graça

Acordou a rir a meio da noite, um sonho com grandes gargalhadas, e chamou. "Mãe, vem cá". E eu lá fui, tonta de sono, aconchegar-lhe os cobertores e ouvi-lo dizer "quero miminhos" e "as tuas mãos estão muito quentinhas" para logo voltar a dormir. De manhã, saltou da cama antes de toda a gente e passou por mim para ir à casa de banho, com cara de mau e aquele sorriso-de-quem-não-quer-sorrir, igualzinho ao do avô Manel, porque hoje faz cinco anos e portanto toda a gente tem de lhe dar beijinhos e prendas. E gostou de tudo, mesmo da roupa que, enfim, já se sabe, não é prenda. Saiu para a escola de farpela nova, óculos azuis espelhados (prenda da mana) e um bocadinho triste por não poder levar também o novo equipamento do Benfica (ai,ai, tio Rui...). Estava filosófico. No caminho perguntou-me "qual é a coisa mais 'impotatante' do mundo", uma questão difícil, já se sabe, com tanta resposta possível, e que para mim não tem dúvida nenhuma que não é uma, são duas, um menino e uma menina. "A coisa mais importante do mundo é não ficarmos doentes e sermos felizes, Pedrinho". E a Madalena ajudou: "Não ficar doente e não morrer. A Avó Graça está a conseguir as duas e já vai fazer 100 anos".
É o que te desejo, meu querido: 100 anos, como os da avó Graça.

domingo, 18 de janeiro de 2015

# Os nossos trabalhos - pregadeiras e pulseiras

Trabalhos de um fim-de-semana de gripe. Duas pregadeiras que serão duas prendas de anos.

E mais uma pulseira para a Inna - uma das aniversariantes -, esta feita por dona Mada. Está uma profissional do crochet.

O amor

No final da primeira semana na escola nova, voltámos à escola antiga para um lanche com os amigos. Pedrinho foi recebido com grande alarido, muitos abraços e beijinhos, e voltou a sentar-se no seu velho lugar no refeitório. Foi ai que contou tudo sobre a escola nova, perante os olhares de admiração dos amigos, que nem queriam acreditar que ele agora já não dorme a sesta e que a seguir ao almoço vai sempre para o recreio, onde até há um escorrega.

Também trouxe já para casa os trabalhos que tinha feito no primeiro período na escola antiga. Entre eles uma bela estrela, a dizer que "o Natal é amor". Fui eu que disse à Mariana, explicou-me. E porquê? Porque [no Natal] ia ficar com a mamã, com o papá, com a minha família... é o amor".

É mesmo, Pedrinho. É um amor muito grande.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Valente Pedrinho


 O Ano Novo trouxe-nos uma novidade: uma vaga no Jardim de Infância na escola da Madalena deixada por uma menina cujos pais emigraram para França. Pedrinho estava em primeiro lugar e a vaga era para ele, mas foi difícil tomar a decisão de o tirar da sua zona de conforto, a meio do ano, e mudá-lo para uma sala cheia de meninos desconhecidos e sem os professores que conhece desde os 18 meses. Na impossibilidade de pedirmos aos nossos próprios pais que nos resolvessem eles o imbróglio, lá nos enchemos de coragem. Pedrinho mudou mesmo de escola. Começou ontem, muito sério, corajoso, sem um queixume, a não ser a constatação de que “o Bernardo e o Pedro Santana vão ficar muito tristes”. À noite, em casa, não quis falar muito sobre o assunto. Sim, a escola foi boa. Sim, a professora também. No recreio brincou com a mana e com os amigos da mana. E os brinquedos “são fixes”, até há um camião do Faísca com o Faísca lá dentro. A sopa de abóbora e a massa também eram boas, agora a “laranja com casca” é que nem pensar. E foi o último a acabar porque esteve a falar com um amigo sobre as coisas que comiam. “O meu amigo come tubarões e eu uma baleia. É tudo faz de conta, mamã.” E como se chama o teu amigo? “Não sei.” E acabou ali a conversa.  
Esta manhã o acordar foi difícil. O pequeno-almoço lento. Queria a mamã. Depois queria o papá. Mas lá foi. Novamente sério, novamente corajoso, sem nenhuma queixa. Sem choros. Um menino valente, que está triste, mas não dá parte de fraco e que nos deixa com o coração ainda mais apertadinho.