sábado, 5 de junho de 2010

Lixo

Cá em casa, o ritual de colocar o lixo lá fora foi sempre um momento difícil. Odiado, mais exactamente, com diálogos do género hoje é a tua vez, não é nada que ontem fui eu, vai tu que isso é tarefa de gajo, tens muita piadinha, tens e outros mimos semelhantes. A verdade é que em regra quem vai é o Sérgio, sempre muito a contragosto. Às vezes lá fazemos a coisa a meias. E sem meias nem sapatos, como na última sexta-feira. Tudo muito normal, portanto, não se desse o caso de ser quase meia noite, estarmos os dois no patamar das escadas do prédio, ele de boxers e descalço, eu descalça mas felizmente um pouco mais vestida e, atrás de mim, a porta de casa ter acabado de se fechar com grande espalhafato. Lá dentro, dona princesa e seu mano dormem. No forno está, quase pronto, o bolo que acabei de fazer para oferecer ao Rui, que no dia seguinte faz anos. Não temos chave, não temos telemóveis, não temos dinheiro, não temos uma radiografia para tentarmos abrir a porta à má fila e lá fora a rua está deserta. Também não temos vizinhos que nos deixem entrar em casa para usarmos as escadas de incêndio e entrarmos pelas traseiras. Claro que não há ninguém. É véspera de fim-de-semana, quem é que fica em casa? Nem a vizinha do primeiro andar, do alto dos seus oitenta e muitos, nem a Joana, do segundo, nem o casalzinho barulhento do terceiro nem, muito menos, os amigos brasileiros do quarto, que trabalham à noite e nunca chegam antes das cinco da manhã. Estamos fritos. Não conseguimos dizer nada um ao outro, cada um de nós ocupado a elaborar complicadas estratégias para resolver o problema, durante aqueles que foram, provavelmente, os cinco minutos mais longos da minha vida. Dentro de casa, os miúdos continuavam a dormir. Se algum chorasse, acho que teria arrombado a porta em dez segundos, que uma mãe em pânico consegue fazer coisas impensáveis.
Mas de repente, milagre, abre-se a porta e aparece o namorado da miúda do terceiro, que nós não conhecíamos de lado nenhum, mas que nos salvou deixando-nos usar a escada de incêndios e que só se salvou de um abraço apertadinho e emocionado porque eu estava mais preocupada em entrar em casa para me certificar de que as crias estavam bem.
E pronto, foi assim. A noite de sexta-feira perfeita.

5 comentários:

carla.mateus.silva disse...

Bem, que aventura! Imagino o vosso pânico,ainda bem que tudo acabou bem:)
beijinhos.

IsabelCunha disse...

K susto!!!

Pati Bolfe disse...

Mas que coisa, pensava que eu era a única esposa que deixava para o marido a tarefa do lixo, e ele o único que reclamava...rs Não só não sou, como do outro lado do oceano vive-se o mesmo dilema =)

Oficinas RANHA disse...

AHAHAHAH! Apesar de compreender o momento, fartei-me de rir com esta história, digna de filme!!! Ainda bem que tudo se resolveu...
Beijinhos, Rita

Alexandra A. disse...

Filomena,

Que enorme susto...
E que enorme sorte, também, felizmente!

Adorei a forma como contaste esta história, a tua escrita maravilhosa vai melhorando, mais e mais. Será a tua "pequena família"(como dizes) que te tem inspirado assim?

Beijos da cunhada