sexta-feira, 30 de julho de 2010

Filhos

Quando era miúda, costumava dizer que quando fosse crescida havia de trazer para casa meninos que nascessem sem pai nem mãe, daqueles que viviam em casas cheias de meninos sozinhos, à espera que alguém os fosse buscar. Durante muito tempo fui gozada na família, pela óbvia impossibilidade prática de alguém nascer sem pai nem mãe, mas a verdade é que a coisa nunca me saiu da cabeça. Anos mais tarde, já adulta, sem filhos e sem pai potencial à vista, muitas vezes pensei que havia de adoptar uma criança, mas a ideia manteve-se no ar, um daquele projectos de longo prazo, para os quais achamos sempre que ainda não estamos preparados. Com o nascimento da Madalena e, depois, do Pedro, o projecto ficou ainda mais adiado, pelas razões mais ou menos óbvias. Duas crianças já dão trabalho que chegue, a casa é pequena, precisamos de mais quartos, o dinheiro nunca dá para tudo e ainda menos para mais uma boca, e depois há os maus horários do trabalho, e a falta de tempo, e os argumentos vão por ai fora, todos muito óbvios, muito óbvios e muito egoístas e egocêntricos. Tudo isto me passou em flecha pela cabeça hoje à tarde, quando alguém que vai ter um bebé em Janeiro, me contou que se candidatou para adoptar uma criança, que está na fila de espera e que pode chegar a todo o momento, antes ou depois do seu filho biológico, não se sabe. Dei por mim a balbuciar umas desculpas merdosas por nunca ter tido a coragem de fazer o mesmo e por, diga-se a bem da verdade, não ter a certeza se alguma vez terei a generosidade suficiente para isso. Porque é preciso uma grande dose. Muito grande, mesmo.

6 comentários:

carla.mateus.silva disse...

é preciso tambem mta coragem...

Rita disse...

É uma prova de amor muito grande, a adopção.
Muito mais do que um filho biólogico, que já se ama porque é nosso.
Agora amar um total desconhecido, é de louvar.
Mas ainda vais a tempo... :)

Oficinas RANHA disse...

Por acaso, nunca vi a coisa muito assim. Eu pensei muitas vezes em adoptar filhos a par de os ter biológicos. A vida veio alterar planos que nunca o foram verdadeiramente, só meras ideias sonhadoras...
Não vejo a adopção como um projecto altamente altruista. Quem quer ser pai, quer sê-lo, ponto. A forma como vemos as famílias é que vão variando de pessoa para pessoa. Eu acho que quando se quer adoptar, começa-se a amar a criança antes dela nos entrar em casa, tal como acontece com uma gravidez. Pelo menos foi assim comigo e acredito que no caso da adopção aconteceria o mesmo. Mas a verdade é que há muitas mulheres que não amam os seus filhos biológicos à nascença ou que não criam com eles laços de vinculação durante a gravidez, por muitos e variados motivos. Está estudado e as mulheres não serão piores mães ou pessoas por isso. O amor maternal também é um processo em construção e o seu tempo depende de cada uma.
O que eu acho mesmo é que a incapacidade de amar um filho... seja ele provindo das nossas entranhas ou não... isso sim, é que é um sinal de egoísmo, ou de alguma coisa estranha que não consigo e não conseguirei nunca compreender.
Rita

Oficinas RANHA disse...

Fui ler o texto novamente... eu disse altruismo mas podia ter dito generosidade... porque é que se é mais generoso ou altruista quando se adopta?! É mais garantido que com os "nossos", os que têm os nossos genes, tudo irá correr bem?!
Nos blogs ou foruns de pais adoptivos essa é uma ideia que também é deitada abaixo... há bastantes a não concordar com essa ideia que lhes é atribuida...
Desculpa Mena e desculpem-me os restantes, esta é meramente a minha opinião...
Rita

Carla M disse...

Eu sinto exactamente o mesmo. Mas penso também, que a vida está sempre a mudar. E que o futuro pode trazer mais coisas boas.

mena disse...

rita,
não quis generalizar. nisto, como em tudo, as coisas são diferentes para cada pessoa, é assim mesmo. para mim, o amor pelos meus filhos foi crescendo, crescendo, à medida em que eles me cresceram na barriga. a intensidade, a urgência, a densidade da coisa foram incomensuravelmente maiores quando os vi cá fora e, agora, em cada dia que passa. o que não quer dizer que não os amasse já muito mesmo quando eram ainda um projecto e, depois, em cada ecografia que fazia ou cada pontapé que sentia na barriga. tratando-se de um filho adoptivo, para mim também seria um processo gradual, por muito que me apaixonasse com a ideia da sua chegada. mas faltariam sempre aqueles nove meses de etapas que nos preparam para a chegada de mais uma pessoa a nossa casa. se um dia adoptasse uma criança, sei que havia de a amar como aos dois filhos que já tenho, mas, honestamente, sei também que precisaria de tempo para isso. que não bastaria o clique de um dia a trazer para casa e para a minha vida.